¤ NAPOLEÃO DINAMITE ¤

[everyday I write the book]

19.12.05

NAPOLEÃO DINAMITE - de novo! - NA FESTA DA LABPOP


As festas de fim de ano te deixam deprimido?
A cidade parece mais vazia do que o costume?
2005 foi um ano ruim?

Exorcize seus fantasmas com Napoleão Dinamite na
Festa da Revista Laboratório Pop

(ou você tem coisa melhor pra fazer na última semana do ano?)

Quando? :: dia 27 de dezembro
Onde? :: no Teatro Odisséia (Av. Mem de Sá, 66 – Lapa)
Quanto isso vai me custar? :: R$ 15 na cara-dura, R$ 12 com filipeta do Odisséia e apenas R$ 10 na lista amiga (é só mandar um e-mail pra fernandamarques@laboratoriopop.com.br)
Comparsas :: as bandas Cinzel, Cabelo Veludo (!), The feitos, Eletro e Seu Cuca

Venha dar um glorioso pé-na-bunda no ano de 2005 ao som do bom e velho rock and roll. De Arcade Fire a Yo la tengo. Do punk ao pós-punk. Do glam ao britpop. Do Canadá à Inglaterra com escalas até em Portugal (!). Guitarras e loops. Hits e b-sides. Se bobear, rola até “Noite feliz”.

Músicas a la carte: faça seu pedido pelo Orkut ou pelo blog de Napoleão Dinamite (http://napoleaodinamite.blogspot.com/)

15.11.05

"Take a sad song and make it better"



Desnecessário me perder em longas elocubrações sobre o papel que os filmes do Cameron Crowe desempenham na minha vida. Suponho que você está lendo o presente texto ou porque "freqüenta" este blog inoperante com certa regularidade, ou então porque recebeu o tradicional spam-de-novos-posts de Napoleão Dinamite, mas independente de qual for a sua resposta, o fato de você estar lendo esse texto significa que, na pior das hipóteses, você me conhece minimamente, ou na melhor das hipóteses, pode ser uma dos meus melhores amigos. Conhecendo-me minimamente ou sendo meu melhor amigo, você deve saber que eu sou fã do Cameron Crowe. Rememorando minhas primeiras conversas com algumas pessoas – sejam elas "melhores amigos", "conhecidos eventuais", "colegas em estágio intermediário" ou mesmo "desconhecidos que sumiram na poeira do tempo" – descobri que, em 90% dos casos, meu discurso de apresentação era quase sempre composto por "Oi, meu nome é Tiago" e qualquer coisa relacionada a "Quase famosos" ou "Cameron Crowe", grotescamente inserida no meio do referido texto. Portanto, é desnecessário me perder em longas elocubrações etc.
Ainda assim, não custa nada reforçar alguns pontos: "Quase famosos" é meu filme favorito, foi o tema da minha monografia de graduação, já foi visto por este que vos escreve cerca de 15 vezes (duas no cinema e o resto em vídeo ou DVD – o que inclui uma sessão no CCBB, três vistas à versão integral de 160 minutos [destas três visitas, uma foi à versão integral com comentários do Cameron Crowe, sem legendas] e aproximadamente oito ou nove exibições da versão tradicional que passou nos cinemas); coleciono todo e qualquer material relacionado ao filme, desde o pôster (que decora a parede em frente ao meu computador) até a trilha sonora (óbvio!), passando por recortes de jornal e matérias de revista (artigos que, picaretamente, utilizei com fins "acadêmicos" na monografia); comprei o DVD do filme antes mesmo de ter o aparelho; tenho o roteiro do filme salvo no computador e, sim, eu já me dei ao trabalho de relê-lo pra comparar o que havia mudado em relação à versão final do filme, o que me leva ao último ponto deste já exaustiva explanação, que é o fato de eu ser capaz de recitar vários diálogos do filme de cor.
"Vanilla sky", ainda que num primeiro momento não tenha me causado o mesmo impacto, foi se tornando um filme muito querido com o passar do tempo (e sucessivas novas exibições): do "Vanilla..." eu tenho a trilha (em vários pontos, superior à de "Quase famosos", posto que mais variada – meu gosto ainda superficial por música eletrônica, de certa forma, começou ali) o pôster, o DVD, e num momento de encruzilhada da minha vida, confesso que tomei uma decisão inspirado tanto pela cena final do filme quanto por determinadas coisas que o Crowe menciona durante a faixa de comentário – aquele papo de aceitar o amargo e o doce da vida, e ter orgulho de ser quem você é a partir das referências que te tornam singular.
"Vida de solteiro" e "Jerry Maguire" são os menos marcantes – deste, guardo boas lembranças da trilha e de uma ou outra seqüência (Tom Cruise voltando de carro após mais um fracasso [fiasco?] e sofrendo uma catarse radiofônica ao som de "Free fallin’", do Tom Petty; o personagem do Todd "High fidelity" Louiso recomendando a fita do Miles Davis pro Tom Cruise conquistar a personagem da Renée Zelwegger; "Take me to the zoo!" e "Secret garden", linda, linda, do Bruce Springsteen); daquele, o início tardio da minha simpatia pelo grunge. "Digam o que quiserem" é o menos cotado não por má vontade da minha parte, mas sim pelo fato de só ter visto esse filme outro dia, dublado na Globo, e com a imagem dando interferência a toda hora – ainda assim, "A pen? I gave her my heart and she gave me a pen!" e John Cusack tocando "In your eyes" pra Ione Skye são dignas de qualquer antologia. "Picardias estudantis" (um dos títulos nacionais mais medonhos já dados a um filme aqui no Brasil) é meio bobinho, mas também, é o primeiro roteiro do cara, e foi rodado numa época em que filmes desse gênero acabavam sendo meio bobinhos por força das circunstâncias.

Outro dia, durante uma evento "acadêmico" na PUC no qual eu estava apresentando o meu já tradicional rame-rame sobre fãs, um dos companheiros da mesa resolveu me perguntar de quem eu era fã, afinal. Olhei pra minha bota estilosa azul-e-preta, que continuará imobilizando meu tornozelo torcido por pelo menos duas semanas, e saquei da memória duas histórias relacionadas ao episódio-fratura: a primeira tem a ver com o show do Elvis Costello no TIM Festival, antes do qual eu torci o pé, durante o qual eu pulei feito um cabrito alucinado e depois do qual me dei conta da merda que havia feito – acho que isso se configura como uma atitude de fã, certo? Eu tenho quase certeza que sim, ainda que minha admiração pelo Costello se restrinja à apreciação que faço das músicas dele. Não fiz, e nem faço, a menor questão de chegar mais perto dele, entrar no camarim, dizer aquelas coisas maravilhosamente boçais que a maioria dos fãs dizem diante do ídolo, e por aí vai.
A segunda história tem a ver com a estréia nacional do novo filme do Cameron Crowe, na sexta-feira dia 4 de novembro, quando eu ainda estava com o gesso e, portanto, impossibilitado de andar e pisar no chão com o pé fraturado: eu saí de Anchieta, peguei trem+metrô, saltando com as muletas pela rua, pra chegar em Botafogo e ver o "Elizabethtown" no dia da estréia. Fui infantil e imaturo? Como sempre. Poderia ter agravado a torção? Certamente que sim. Accidents will happen, já dizia Mr. Costello na canção homônima. Mas eu fui. E não me arrependo nem um pouco, assim como não me arrependo de ter ido pro TIM Festival mesmo com o pé machucado, porque sei que estaria me sentindo muito pior se tivesse procurado apoio médico imediatamente (e perdido o show) ou ficado em casa e deixado pra ver o filme outro dia. Aliás, "arrependimento" é uma palavra que a gente devia, progressivamente, eliminar do dicionário. Por pior que tenha sido, sempre foi melhor do que se não tivesse sido. E se não fosse desse jeito, seria de outro. Certo? Tenho quase certeza que sim.
E de mais a mais: eu acompanhava a produção desse filme desde o ano passado (quando cogitei a possibilidade remotíssima de descolar uma entrevista por e-mail com o Crowe, a propósito da monografia, no ano passado, ele estava começando a rodar o "E-town"). Ao ser inicialmente incluído na programação do último Festival do Rio, eu quase enlouqueci (principalmente porque o Crowe podia dar as caras aqui no Rio pra presenciar o lançamento, e caso essa sessão efetivamente acontecesse, eu seria capaz de vender a minha mãe pra conseguir o ingresso e madrugar na fila pra pegar um bom lugar), até descobrir que a exibição tinha sido cancelada e a estréia, remarcada para 21 de outubro (primeiro) e 4 de novembro, data em que o filme, finalmente, estreou.
Dizer essas coisas, em nenhuma medida, justifica a minha demência. Nem é a minha intenção aqui cobrar a compreensão alheia. Ate consigo imaginar alguém dando sorrisos cínicos aí do outro lado da tela, senão gargalhando da minha estupidez. Mas o fato é que, toda vez que eu tento descrever em palavras a sensação que tive ao descer as escadas do Cinemark naquela sexta-feira, depois de ter superado a distância e a dificuldade de locomoção só pra "ver um filme bobo", as palavras me escapam. A história do filme, a minha história, a minha jornada até o cinema e a jornada do personagem, estava tudo misturado na minha cabeça.
O Cameron Crowe está para o cinema assim como o Elvis Costello para a música pop, e eu peço encarecidamente que vocês acompanhem o meu raciocínio até o final, antes de descartar a minha hipótese aparentemente implausível com um "bleh" de desprezo e ironia. Ambos contam com o entusiasmo de um público relativamente pequeno (em comparação com os U2s e Spielbergs da vida), ainda que fiel. Ambos se tornaram populares, no Brasil, graças a seus trabalhos menos inspirados (o cover de "She" – que apesar dos pesares, é um belo cover, pena que não faça justiça, musicalmente falando, à obra precedente do cara, o que faz 90% das pessoas acharem que toda e qualquer música do Costello vai ser igual à "She" – e "Jerry Maguire"). As músicas de um e os filmes do outro lançam uma nova luz ao onipresente tema dos relacionamentos humanos, principalmente amorosos, seja compondo canções pop de três minutos que fogem tanto da fórmula "you’re my blue sky, you’re my sunny day" quanto da desolação total de um Smiths, seja reinventando a comédia romântica hollywoodiana, misturando o cinismo de um Billy Wilder e o otimismo de um Frank Capra com doses indispensáveis de rock and roll e referências pop. Quem já viu "Elizabethtown" sabe do que eu estou falando: não é qualquer roteirista/diretor que transforma a personagem da Kirsten Dunst em um ser humano absolutamente adorável e apaixonante, ou concebe um happy end daqueles sem parecer cafona ou implausível.
Fora que o amor (esta esfinge), nos filmes do Crowe, jamais é apresentado como a salvação dos problemas ou a finalidade do protagonista: o amor é sempre o meio, a lente através da qual o personagem principal passa a enxergar a si próprio e então tomar o impulso necessário para sair do buraco. E quando eu falo em amor, não me refiro apenas ao amor homem-mulher, mas também a outras modalidades de amor: "Jerry Maguire" é uma história de amor entre dois caras (o personagem do Cruise e do Gooding Jr.), envolvendo confiança, amizade e dedicação (se isso não for amor, então já não sei mais o que essa maldita palavrinha vem a significar...); "Quase famosos", além de ser uma declaração de amor à musica, é também uma declaração de amor do Crowe à sua mãe, Alice, que volta e meia faz pontas nos seus filmes; finalmente, "Elizabethtown", além de ser um filme sobre a redescoberta do amor-próprio, é também uma declaração de amor algo tardia do Crowe ao pai já falecido – sendo que o tema do pai ausente ou (oni)presente sob a forma de memória também já se fazia perceber em "Quase famosos" e "Vanilla sky".
Quer dizer, existe uma certa coerência na filmografia do cara, e isso é inegável. Coerência esta que, por sua vez, se reflete em seu estilo de roteiro e direção e na sua maneira de conduzir a narrativa. Planos recorrentes (do observador que vê o mundo passar pela janela do carro ou do ônibus, por exemplo – e "E-town", por ser um filme-de-estrada, é rico em planos dessa natureza), ambientes institucionais opressivos (a redação da Rolling Stone, a empresa de sapatos de Drew, o escritório de David Aames em "Vanilla sky"), o personagem perdido que precisa se redescobrir e, finalmente, uma desconstrução algo carinhosa do núcleo familiar padrão.
"Elizabethtown" é um road movie, e eu sou apaixonado por qualquer filme ou música que se passe na estrada ou faça referência a esse universo. Daí a importância do repertório alt-country da trilha sonora do "E-town", porque as músicas escolhidas traduzem perfeitamente o espírito da jornada do protagonista. E ainda têm o mérito de revelar nomes até então desconhecidos aqui no Brasil, ao contrário das trilhas de "Quase famosos" e "Vanilla sky", em que a presença de medalhões da música pop era mais evidente. Tirando a "My father’s gun" do Elton John (ainda assim, uma das músicas menos conhecidas dele), que, aliás, produz na tela um efeito emocional tão potente quanto "Tiny dancer" em "Quase famosos" (e eu fico com os olhos cheios d’água em ambas as cenas) e duas canções do Tom Petty (um camarada que é menos conhecido aqui no Brasil do que deveria – "Square one", que toca na cena em que o Drew dança sozinho no meio da floresta, quase no finalzinho do filme, é linda toda a vida), o resto da trilha é constituído por ilustres desconhecidos. Como o CD ainda não foi lançado no Brasil, e eu tenho quase certeza que isso não acontece tão cedo, se é que vai acontecer um dia, vale a pena baixar "Jesus was a crossmaker" (The Hollies), que toca logo na primeira cena; "This time around" (Helen Stellar), quer rola nas cenas de flashback entre Drew e Mitch; a divertida e dylanesca "Let it out (let it all hang out)" (The Hombres) e "Same in any language" (I nine), ainda que a versão que toca no meio do filme seja muito superior à que consta no CD. Só ficou faltando alguma coisa da Joni Mitchell, que poderia ser qualquer faixa do disco "Blue", ou "Big yellow taxi", aquela dos versos "Don’t it always seem to go/ that you don’t know what you’ve got till it’s gone/ they’ve paved paradise/ and put up a parking lot". E "Free bird", na versão do Rockus, devidamente incluída como faixa-bônus no CD oficial da trilha, por que não?
Às vezes você precisa de situações-limite pra perceber determinadas coisas de maneira mais cristalina. Tem sido assim desde janeiro último, quando meu avô foi parar no hospital e eu fiquei lá com ele durante as madrugadas; desde junho e julho, quando em virtude das mais sortidas infecções e moléstias, eu praticamente não saía da cama; desde setembro, quando finalmente as coisas aqui em casa se estabilizaram e aí foi a vez do meu pai ser operado; finalmente, desde o dia 23 de outubro, quando a impossibilidade de locomoção me fez enxergar de outra forma a dádiva que é você poder andar. Como vocês devem ter percebido, já tive anos bem melhores do que este de 2005. "Elizabethtown" representou, então, a minha redenção. Mais uma vez, e espero que esta não tenha sido a última, um filme do Cameron Crowe me fez enxergar uma possibilidade luminosa à frente. Sob essa perspectiva, os filmes dele funcionam como uma espécie de auto-ajuda, mas não essa auto-ajuda babaca que a gente vê por aí, aquela em que alguém investido de uma suposta autoridade vem te dizer o que você deve fazer, mas sim algo mais ou menos parecido com o que o crítico do JB disse sobre o filme (um dos poucos, aliás, que se dispôs a enxergar além da superfície e do que a crítica lá-de-fora já havia evacuado): que você (assim como o protagonista do "E-town") só pode ser capaz de amar alguém (e o mundo, por extensão) quando aprende a amar os defeitos e as virtudes que fazem de você uma pessoa única. Então não é que os filmes do Crowe me transmitam uma mensagem positiva, no sentido Disney da expressão: eles me despertam o ímpeto de enxergar o mundo (a minha identidade, as minhas escolhas, os meus erros) sob outra perspectiva. Uma perspectiva que me faz acreditar que é possível rir dos próprios fracassos e seguir adiante na certeza de que a vida faz algum sentido, ainda que ele seja quase sempre estranho e incompreensível.
Como de costume, falei mais a meu respeito do que sobre o filme propriamente dito. Se bem que eu posso usar a batida desculpa do "essa era mesmo a minha intenção, afinal o que eu quero é que vocês vejam o filme o quanto antes" e sair pela tangente. Pois bem, essa era mesmo a minha intenção. Não têm filmes que eles dizem "ame ou odeie, mas não deixe de ver"? Este é um deles.
E boa viagem.